quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Bolo de Azeite

Diz-se bolo de azeite, mas não leva açúcar. Talvez o tenham baptizado assim para o diferenciarem do pão diário, porque é mais rico e também para melhor o honrarem. Fazia-se e faz-se ainda hoje pela Páscoa nos lugares perdidos da Beira Interior e suas esbatidas fronteiras.

Os ovos e o azeite, que o distinguem do outro pão, eram preciosos no tempo da antiga penúria. Uma penúria diferente da de hoje. Hoje, muito maioritáriamente, é preciso dinheiro para a farinha, para os ovos, para o azeite e para tudo. Dantes, em boa parte das famílias rurais, havia, além do resto, este pão rico para festejar a ressurreição de Jesus de Nazaré, a sua deificação, afinal.

Como observou uma pessoa amiga, hoje a penúria é total quando penúria. No alcatrão urbano não crescem searas nem oliveiras nem há galinhas a vadiar, nem a solidariedade que havia no meio rural e que pontualmente acudia à miséria. Nos lugares urbanos que acolheram a imigração dos campos deixados a monte, é preciso dinheiro também para este bolo, que se vende industrializado todo o ano, cuja qualidade nada tem a ver com a deste.

Fiz o bolo de azeite no domingo passado, com 1/2 Kg de farinha de trigo, primeiro ainda que a Paula do Rap'ó Tacho, que pediu a receita no seu blogue e eu fui lá escrever-lhe esta, depois de a ter procurado nas origens.

Deu-ma na altura a dona de uma casa farta algures, numa aldeia beirã, já quase a confinar com o Alto Douro. Só que para 10 kg de farinha...


Fiz o isco com farinha e 20 g de fermento e água mais que tépida, de modo a ficar um pouco mais mole que a massa de pão. Deixei levedar para o dobro (levedou mais).


Adicionei 1/2 kg de farinha de trigo tipo 55 e sal, e fui juntando 5 ovos médios, enquanto amassava. Depois, como achei a massa ainda dura, juntei um pouco menos de 0,5 dl de leite tépido, e continuei na faina até a massa se me descolar dos dedos. O meu robot de cozinha avariou (a que a tigela inox das imagens pertencia) , e agora tenho de esperar onze meses pelo Natal, pode ser que o Menino Jesus me traga um novo.


Foi então que juntei 100 ml de azeite, o azeite de Vila Nova de Foz Côa que uso para tudo e de que falo aqui repetidamente, tem 0,3º de acidez e é muito frutado, sabe muito a azeitona, o que é de grande vantagem para este caso. Tornei a amassar até incorporar bem o azeite.


Coloquei então a massa no tabuleiro de ir ao forno, sobre uma placa de silicone e deixei-a levedar.

Levedada, tornei a amassá-la e tentei dar-lhe o formato do bolo que se vê nas padarias e pastelarias, que é mais ou menos o que se vê no Rap'ó Tacho. Em vão. Ainda enfarinhei a massa, mas nada. O certo é que os bolos de azeite, que tenho visto e saboreado quando feitos por gente que guarda essa tradição, não têm tal formato, são redondos como pães grandes. Isto não perdoa a minha azelhice, perdoa, isso, sim, eu não ser padeiro, embora gostasse bastante de fazer pães e pãezinhos quando tinha a minha saudosa auxiliar, avó desta.


Deixei levedar de novo o bolo para o dobro do tamanho e levei-o ao forno pré-aquecido a 180ºC. Às tantas, a parte de cima começou a descolar da de baixo, deixando entre ambas umas perigosas tiras de massa... Apressei-me a cortar com uma faca, em plena cozedura, essa espécie de cordões umbilicais. Quando o bolo ficou lourinho, retirei-o, dando-o como pronto. Afinal estava bonito. No entanto, passado talvez meio minuto, lembrei-me de lhe espetar o palito da praxe. Ainda não estava bem cozido... Voltou ao forno para acabar de cozer.

Agitada história, a deste bolo de azeite, rio-me. Mas estava bastante bom, como aqueles caseiros que vou provando quando tenho sorte, a massa igual, mas diversa da dos bolos de azeite industriais, que é muito mais próxima da dos papos-secos, leva corante e o azeite é racionado como em tempo de guerra.

Desta mesma receita, descobri-o depois de a fazer, deriva o Bolo Podre, da Beira Alta, juntando açúcar a gosto e canela.

Etiquetas:

9 Comments:

At 2/2/07 09:47, Blogger colher-de-pau said...

Perco-me por bolo de Azeite. O meu avó de origem e tradição beirã, ainda vai à terrinha de duas em duas semanas...e isso vale-me quase sempre, para além de uns requeijões, quando é tempo deles, um bom bocado de bolo de azeite, que a prima sei lá em que grau ainda faz e amassa e coze no forno de lenha!
A ver se me aventuro a fazer eu agora a tentar fazê-lo!

 
At 4/2/07 11:15, Blogger o avental said...

É bom conservar as tradições da cozinha, senão, daqui a nada, estamos todos a comer o mesmo, Colher de Pau. É um fartar de risotos, pastas, vinagres balsâmicos, pizas, hambúrgueres, batatas fritas com ketchup, os itálicos e os saxões invadem as nossas mesas, e não damos por isso se não estivermos atentos ao fenómeno da globalização em que nos querem mergulhados até à ponta dos cabelos.

 
At 6/2/07 10:02, Blogger Paula said...

Ficou soberbo! Trocava algumas das minhas broas de canela para provar uma fatia deste... Parabéns! Hoje faço o meu.

 
At 6/2/07 16:16, Anonymous Alexandra said...

Espero que experimente tb a receita que deixei no blogue Rap'ó Tacho pois seria óptimo saber se a receita da minha avó se assemelha ao bolo de azeite de que têm falado. Sinceramente, ainda não experimentei, até porque como sou eu q faço o meu próprio pão seria já um bocadito de trabalho a mais. É a preguiça de cozinhar para uma só pessoa.

 
At 7/2/07 11:57, Anonymous amélia pais said...

Eu gosto muito.Na minha terra faz-se pela Páscoa...

 
At 9/2/07 21:59, Blogger João Barbosa said...

tenho uma caga ideia de ter provado deste no Alentejo... estarei errado na referência?
Saudações

 
At 12/6/08 16:23, Anonymous Anónimo said...

Será que dá para fazer na máquina do pão

 
At 10/3/14 18:09, Blogger AL said...

Ohhhhhhhhhhh, obrigada por este 'post', esta receita com as fotos das fases todas!
Sou de Viseu (já não vivo lá há um ror de anos..) e adoro este bolo de azeite! Uma amiga trouxe-me um no ano passado, de uma padaria, mas não tinha nada a ver com a memória do meu sabor..

Este ano vou experimentar ..
Abraço

 
At 26/3/16 19:44, Anonymous Anónimo said...

É um bolo magnífico! Comia-o, ou antes devorava-o, sempre que ele chegava por esta altura de Tortozendo, terra natal do meu sogro... Já lá vão tantos anos... Que saudade... Um dia vou experimentar fazê-lo! Bem-haja por esta feliz recordação .

 

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home