terça-feira, maio 08, 2007

Ensopado de cabrito com mp3

Tenho que escrever sobre o Viseu Gourmet, mas ainda não é hoje que me apetece. Agora vou contar do ensopado de cabrito que fiz no passado domingo. Mais uma vez não segui nenhuma receita, nem nunca tinha comido cabrito desta maneira. No entanto, como nada nasce de nada, não posso deixar de pensar que me terei inspirado num dos pratos tradicionais que mais me agrada – a jardineira de cabrito, ao mesmo tempo que fui buscar coisas ao ensopado de borrego à alentejana e à técnica de um fundo para o caldo.

Piquei meia cebola média para um panela, pus azeite, um dente de alho grande com casca, falda e costela de cabrito partidas em bocados pequenos, um alho francês em três pedaços, do mesmo modo uma cenoura grande, uma mão cheia de feijão verde às metades, um ramo de salsa, pimenta preta, sal e água, que em minha casa é bem boa, de um poço daqueles antigos, com nascente. Levei tudo ao lume em cru, pelas razões já aqui miudamente explicadas, e aí ficou a fervilhar por 1:30 h mais ou menos, acrescentando, a meio, um tomate maduro, pequeno, partido aos pedaços, sem casca nem sementes, e uns 100 ml de vinho branco de Pegões. Depois fui juntando água aos poucos e retirei o alho francês, o dente de alho inteiro, a cenoura e o feijão verde, e pus outro feijão verde cortado miudinho.

Passado algum tempo, acrescentei à panela umas quantas batatas pequenas inteiras e duas colheres de sopa de vinagre. Juntei pimentão de La Vera até obter a cor que quis. Tinha cozido à parte cenouras baby e ervilhas, e já para o fim passei-as para a panela para não perderem muito a cor. Uns dois minutos antes de desligar o lume, perfumei o caldo com uns quatro bons ramos de hortelã, rectifiquei de sal e servi em pratos de sopa sobre fatias de pão rústico.

Tinham passado 2:30 h desde que começara a fazer o ensopado, sem dúvida um prato de slow food. Estava de se lhe tirar o chapéu. E não me aborreci nada por ter estado tanto tempo na cozinha: é que tinha arranjado no dia anterior uma óptima companhia , um mp3: cozinhar com música de que gostamos é bem melhor, garanto, do que cozinhar em silêncio ou ao som de um leitor de Cds, que ninguém leva a aparelhagem para junto do fogão, e o mp3 isola-nos e faz-nos levitar numa bolha só nossa, para usara expressão de uma pessoa minha amiga.

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14 Comments:

At 9/5/07 10:28, Blogger Elvira said...

Sou uma fã assumida da maneira como sabe arranjar a culinária tradicional portuguesa. :-)

 
At 9/5/07 21:41, Blogger Goretti said...

Pelo que se vê na foto, deve ter ficado mesmo de se lhe tirar o chapéu:)
O do post abaixo, a cabidela, tb não deve ter ficado atrás. Mas, aí, sou mais suspeita, pois é um prato que adoro. E, aqui em Lisboa, é muitooooooooooo difícil encontrar uma cabidela pelo menos razoável! Tiro a barriga de misérias quando vou a casa da minha mãe.

 
At 10/5/07 15:22, Blogger rita said...

e qual é a receita do mp3? eu não passo sem musica, seja a cozinhar, seja a conduzir ou a lavar os dentes! até para dormir:D o ensopado parece-me bem...

 
At 11/5/07 18:15, Blogger marta said...

Tenho um desafio para si, lá no claras.

Penso que cabe no seu blogue, se quizer evidentemente.

 
At 15/5/07 18:14, Anonymous Anónimo said...

Gosto da sua inventividade e, de forma geral, creio que consegue coisas muito boas, embora fique com alguma reserva natural, mas simapticamente compreensiva, em relação à adjectivação barroca que faz delas.

Há um aspecto muito importante: a sua cozinha é de solitário, é a sua vida, inteiramente respeitável. Mas isto não corresponde à generalidade dos casos e acho que devia ter a preocupação de dar as receitas para 4 ou 6 pessoas. Já vi que percebe de cozinha mais do que o suficiente para saber como isto faz diferença, tecnicamente.

 
At 16/5/07 22:41, Blogger Paula said...

Tanto o ensopado como a cabidela estão de se lhes tirar o chapéu, sim senhor!

 
At 20/5/07 03:37, Anonymous soledade said...

Deve ter ficado muito bom, o ensopado! Mas, como diz a minha amiga Anita, há pessoas que não podem ver uma "bolha" a ninguém :)

 
At 21/5/07 12:41, Anonymous o avental said...

Temos uma óptima cozinha cada vez mais maltratada, Elvira. Quantos restaurantes, em percentagem, terão pratos regionais bem feitos?

 
At 21/5/07 12:50, Anonymous o avental said...

Goretti, esse arroz foi só uma experiência, estava bom, mas parecia "arroz negre", um arroz de VaLÊNCIA com tinta de chocos. Um dia faço um arroz de cabidela como deve ser.

 
At 21/5/07 12:52, Anonymous o avental said...

Rita, o mp3 é um vício :)

 
At 21/5/07 13:58, Anonymous o avental said...

Anonymus, se tomarmos apenas o Barroco como um estilo "farfalhudo", tenho visto coisa bem mais cheia de voltas e voltinhas. Mas isso evocar-me-ia o Rococó, porque tenho muitíssimo mais apreço por aquela época da Arte.

Quanto a ser-se solitário ou não, cada um sabe de si, e os deuses, de ninguém. No entanto, seria das últimas pessoas a ter-me como um ser solitário, além de que era preciso definir o que é solidão. Porque há várias formas dela, de várias profundidades, digamos assim. E também há uma bastante saborosa: quando queremos estar sozinhos e que não nos aborreçam. Depois, as janelas de minha casa não são como, por exemplo, as de Roterdão, sem cortinas nem persianas. Que quer? são coisas que trouxe de há séculos da Ilha de S. Miguel…

Quanto a receitas para x pessoas, um blogue deste tipo não é nenhum livro nem espero redigir receitas nele ou noutro meio qualquer. Escrever sobre o que vou fazendo é o que me dá prazer. De resto, quem saiba um pouco de cozinha estou em crer que percebe facilmente, já que não escondo segredos, um que seja. Além de que os comentários estão abertos também para dúvidas.

 
At 21/5/07 14:02, Anonymous o avental said...

Paula, o ensopado estava bem bom e o arroz também, só que o arroz se afastou do nosso arroz de cabidela (os sabores eram bastante mais intensos e não era a correr como lhe é devido).

 
At 21/5/07 14:06, Anonymous o avental said...

Soledade, vou ter que fazer este ensopado para a sua amiga Ana? :)

 
At 21/5/07 14:11, Anonymous o avental said...

Marta, foi tarde e incompleto, mas foi.

 

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