segunda-feira, novembro 27, 2006

Choquinhos grelhados com ovas crocantes de bacalhau e aveludado de mexilhão


Ontem a minha cabeça andou às voltas à procura de um jantar condigno da perdiz do domingo passado, e de manhã andei pelos hipermercados, a ver se tinha ideias. Sucede que encontrei uns choquinhos e pensei que seriam bons grelhados sobre uma cama de ovas cozidas, tudo temperado com o tal azeite virginal de Foz Côa, alho esmagado no passador e coentros picadinhos, e trouxe os cefalopodezitos mais as ovas. Comprei a seguir uma bolsa de mexilhões, com a ideia de picá-los miudamente e temperá-los da mesma forma, agora com um pouco de vinagre, e tentar assim, com as ovas, a diferença nesse prato.

Sucedeu, entretanto, que tudo se transformou na minha cabeça, com o desagrado que senti em não dar um destino mais criativo àquilo. Hoje do que gosto mesmo na cozinha é a aventura que é a criação. O tempero de coentros, alho e azeite foi à vida. Grelhei os choquinhos só com sal, e também as ovas que, depois de cozidas e frias, grelhei em fatias na chapa, com a esperança de ficarem crocantes para contrastarem mais fortemente em textura com a dos chocos.

Estava com os mexilhões já abertos e tudo quase pronto, quando me saltou à cabeça uma ideia luminosa. Fazer um molho (môlho...) com eles. Piquei meia cebola grande para um tacho já com o tal azeite, deixei amaciá-la e depois puxei um pouco o refogado. Nessa altura, adicionei meio copo de um Alvarinho com 12,5º, comprado no Lidl para a cozinha - cheirava bem à casta, no entanto alguma coisa teria para ter custado apenas 1,99 €: na boca morria quase de imediato, sem vestígios de ter passado nela dez segundos depois de o beber. Mas no tacho portou-se muito bem. Deixei evaporar um bom bocado o vinho, bem mais de metade, e juntei um pouco da água que os mexilhões tinha largado. Passei tudo com a varinha e coei por um coador fino. Não precisou de sal. Era para lhe pôr pimenta preta, era para o ligar com Maisena, e não fiz nada disso. Estava tão bom, tão bom que temperá-lo com pimenta era um pecado, e não precisou da Maisena porque, para meu espanto, estava bem ligado e era um veludo.

Empratei como se vê, sobre um pouco de rúcula selvagem sem tempero nenhum. As ovas e os chocos temperei-os com azeite fora do prato, claro.

Só digo: as ovas estavam crocantíssimas, o molho divino, os choquinhos no seu ponto e as ligações perfeitas. Isto não é vaidade, é prazer. Creio que trocava este prato pela perdiz aí de baixo, embora o melhor fosse terem sido saboreados um a seguir ao outro.

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11 Comments:

At 27/11/06 13:56, Blogger JVC said...

Ora aqui está um óptimo exemplo daquilo que discuti ontem, a arte de combinar sabores complementares, mas mantendo a diferença. Parabéns e claro que vou experimentar a receita.

 
At 27/11/06 20:06, Blogger Elvira said...

Um prato divinal! :-)

 
At 27/11/06 23:49, Blogger Damelum said...

Caro avental,

Para além da simbiose de pecados mortais que me atravessam ao visitar a sua cozinha (desta feita a gula e a inveja), queria colocar-lhe uma dúvida prática. Que tipo de chapa utiliza? Pareceu-me já ter lido a marca e o local de compra aqui por ocasião de um "tal naco de ambrósia", rs. Utiliza-a no fogão ou é eléctrica?
Quanto aos chocos, ora e se me permite, imitá-lo-ei sem alterar um gesto...
Um abraço

 
At 27/11/06 23:49, Blogger Damelum said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

 
At 27/11/06 23:52, Blogger Damelum said...

Desculpe pelo erro de concordância. Digo "que me atravessa"...
Rs..

 
At 28/11/06 10:53, Blogger o avental said...

JCV, li a sua entrada e de facto este prato está um pouco como diz em relação aos molhos. A meu ver, no que concerne às minhas ideias, apenas devia ter posto neste prato uma colher de molho, o suficiente para depois envolver os chocos nele ao comê-los. Devia até ter optado por uma mousse do mesmo, pondo no prato um pouco dela.

Um dia destes farei algo que deve ser uma delícia, que me está na cabeça, e aí seguirei integralmente o seu conceito do papel a desempenhar pelos molhos. Ou seja, mesmo molhos, na linha da cozinha francesa clássica.

 
At 28/11/06 10:55, Blogger o avental said...

Era bom, sim, Elvira. Devo-lhe uma referência no Blogue, a si e a outros. Fá-la-ei hoje. O tempo é sempre pouco.

 
At 28/11/06 11:48, Blogger o avental said...

Damelum, uso a chapa sobre gás, mas dá para qualquer tipo de calor eléctrico. Tem no endereço abaixo onde não só falo disso como indico o fabricante (comprei-a no Corte Inglês de Gaia por cerca de 45 euros).

http://aventalgourmet.blogspot.com/2006/10/bife-de-lombo-de-novilho-com-molho-de.html

Se souber fazer uma mousse com esse molho, usando agar-agar para a poder comer quente, penso que dá mais relevo que o molho...

 
At 28/11/06 11:56, Blogger o avental said...

Aparece agora esse comentário apagado que não apaguei. Não apago comentários, a não ser que me chamem fdp, ladrão, coisas lindas destas, o que não foi o caso. Talvez o livre arbítrio do Blogger, ou spam.

 
At 28/11/06 12:01, Blogger o avental said...

Não há erro de concordância, Damelum, está desculpado :)

Ora veja aqui:

http://ciberduvidas.sapo.pt/php/resposta.php?id=18877&palavras=plural

 
At 30/11/06 19:58, Blogger Damelum said...

Caro avental,

Desculpo-me pelo equívoco do "post apagado". Dupliquei o post sem querer, publiquei-o duas vezes e dei sumiço a uma delas. Mea culpa.
Um abraço
C. Diogo

 

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